Há dias, assentado numa sala de espera de uma clínica médica, folheava as revistas de sempre, com as notícias dos escândalos e corrupção em que vive o Brasil há várias décadas. As pessoas comentavam que o PT, até aqui o dono da moralidade e da verdade, era tão corrupto como os demais partidos e que o assassinato do prefeito de Campinas lançava uma sombra de dúvidas sobre aquele partido. Reportagens com a Xuxa, o Lula, o Waldomiro dos bingos, Silvio Santos e os deslumbrados da revista “Caras” , saturavam os meus olhos e esgotavam a minha paciência pois se repetiam “ad nauseam”. Joguei a revista para um lado e passei a prestar atenção nos outros clientes. Vi uma jovem baixinha, trajando um vestido azul claro, que ia até os pés, com um penteado de rabo de cavalo, passando, rapidamente, pela extensão da sala para ir ao bebedouro. Atrás dela vinham mais três crianças, seus filhos, que gritavam mais do falavam, “mamãe, mamãe !”. Ela não se alterou e com maior paciência deu de beber à sua pequena prole. Para mim foi um momento de beleza.
Olhei discretamente para a jovem mãe que mostrava uma gravidez num estágio bem avançado. Ela não desfilava o ventre e nem o umbigo, como fazem algumas gestantes num modismo de tremendo mau gosto. Seu vestido, inteiriço, compunha uma forma harmônica e dava àquela jovem um aspecto agradável, e, no meu pensamento, disse-lhe: “Como você é bela”.
Saciada a sede dos filhos voltou para o seu lugar e percebi claramente que no seu andar revelava um certo orgulho e “aplomb”. Ela carregava no seu ventre um outro ser e o fazia com dignidade. Suas passadas eram firmes e delicadas sobre as sandálias de couro. Fechei os olhos, fingindo que adormecia, e pensei que tipo de orgulho ela expressava. Não era o orgulho que acompanha a soberba, a imodéstia ou a arrogância. Era o orgulho ligado a um sentimento de prazer, de grande satisfação e de altivez. E tudo, por quê? Mais uma vez ela aceitara o desafio de ser mãe. Daria ao mundo um quarto filho. Quem sabe se não tentaram persuadi-la a abortar? Quem sabe se o marido, pouco compreensivo, não lhe dissera que ficaria feia, iria engordar e que não estava disposto a se privar do sexo por tanto tempo? Quem sabe quantas dúvidas tentaram colocar no seu coração para que desistisse de mais este filho? Ela, a tudo resistiu. No meu coração refleti porque a Igreja não representava Maria, a mãe de Jesus, no período da gravidez. Imaginei Maria carregando no seu ventre, como aquela jovem mãe, o seu menino Jesus, na modesta casa de Belém, enquanto fazia o trabalho doméstico. Que Nossa Senhora Grávida desse àquela jovem mãe um parto feliz, desejei. Daqueles devaneios fui chamado à realidade pela secretária do médico que tocou nos meus ombros, pois eu parecia estar cochilando, e disse-me: “Está na vez do senhor.”
De pronto, levantei-me, e na sala de espera ficou aquela jovem mãe que mais uma vez olhei e que, com um doce sorriso, me respondeu.