Blog = diário, certo? Errado!

Author: gikrdoso  //  Category: Literatura

Você já chegou a pensar na definição de blog? Quando vai se definir a palavra para alguém, as pessoas geralmente dizem “diário virtual“. Eu não concordo. Tá certo que várias pessoas usam para essa finalidade e tal, mas as suas páginas não chegam a ser muito apreciadas, fazer um sucessão na net, a menos que seja alguma celebridade divulgando o que faz e o que deixa de fazer. Pode-se ver a diferença entre os termos blog e diário com várias comparações, até porque o mundo está muito mais high-tech:

  • No tempo que você tinha seu diário (e nem vem dizer que nunca teve, porque é mentira), você falava as coisas que via certo? Até tinha como por fotos ou figuras, apenas isso. Hoje no seu blog você posta vídeos.
  • Você o tratava como “querido diário“, por mais que aquilo fosse só um papel e, agora com o seu blog, várias pessoas de carne e osso sabem o que você sente, ou o que deseja comunicar.
  • Não tinha como alguém comentar em seu diário, pois era algo confidencial para você e ninguém metia o bedelho e ninguém tinha acesso a ele. Alguns vinham com chavinha para você trancar.
  • Você mostrava seu diário para alguém? Creio que a resposta seja não. Seu blog, todo mundo (ou quase) vê.

Não acho ruim nem boa essa mudança. Apóio quem ainda tem diário ou agendinha e adoro blogs mas quando for explicar para um leigo (ainda existem leigos com internet, acredite), pense duas vezes antes de dizer “ah, é como um diário…”, porque não é.

Por Gisele Cardoso

A China que estou vendo – por Sérgio Kodato

Author: fradique  //  Category: Literatura

Em três artigos tentarei mostrar ao leitor as impressões que estou tendo da China nesta viagem de estudos feita com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e da FFCLRP da USP. Apreciarei e muito que os leitores façam comentários no blog formulando questões sobre a China que vive uma situação “sui generis” pois continua comunista na organização social e altamente capitalista na sua economia.

Beijing, capital da China tem uma história de 3000 anos e congrega monumentos históricos famosos, bastante visitados, lado a lado com gigantescos arranha-céus, modernos shopping-centers, imensos condomínios residenciais, centenas de fábricas e uma vasta periferia, onde se vê muita sujeira, cachorros abandonados, mas não se vê indigentes, alcoólatras ou crianças famintas e pedintes.

Minha experiência na China foi surpreendente desde o início: desembarcando no aeroporto de Beijing, ao trocar dólares por yuans, na proporção de um para sete, percebi que a valorização da moeda americana em relação à local, tornava tudo bem barato, para o nosso poder aquisitivo. Para se ter uma idéia, convertendo para o real, a passagem de ônibus custa 30 centavos; o metrô: R$0,60; taxi em trajeto longo: R$10,00; uma refeição num restaurante bom: R$10,00; uma calça jeans: R$20,00; um blusão de nylon acolchoado R$25,00; um blusão de couro de grife: R$150,00; apartamento individual num hotel bom: R$60,00. Se na Europa 200 euros são gastos em 2 a 3 dias, aqui na China eles se transformam em 2000 yuans, que cobrem tranqüilamente gastos de duas semanas. Além disso o pessoal do hotel em que havia feito a reserva, foi me buscar no aeroporto, evitando transtornos de demorar a achar o local, ainda mais num local estranho, em que não lia e nem falava o idioma local; correndo o risco de ficar rodando de táxi pela cidade. A receptividade do pessoal do hotel era uma pequena amostra da amabilidade do povo chinês; nunca vi tanta gente de boa índole, educada e bem humorada em toda a minha vida.

Pelo menos aqui em Pequim não há roubos ou violência nas ruas, ninguém bate a carteira de ninguém, ninguém fica mexendo com as mulheres gratuitamente, não há alcoólatras ou crianças pedintes, não há discriminação de espécie alguma. Muito pelo contrário, o que vigora aqui é a cordialidade e solidariedade nas relações sociais. No metrô se vaga um lugar para sentar, as pessoas te avisam. Se esquece alguma coisa em um estabelecimento, eles vem correndo atrás te chamar. Se você se confunde com as notas e dá menos dinheiro para pagar uma conta, te corrigem e dão risada. São muito espontâneos e sorridentes. Demorei uns quinze dias para me curar da paranóia que corre solta no Brasil. Ficava fantasiando que o pessoal do hotel poderia roubar meu computador, que poderiam clonar meu cartão de crédito, que o chá que oferecem nas lojas e shoppings poderia conter algum sonífero ou droga, mas relaxando foi possível usufruir e se divertir nessa bela cultura milenar. A malandragem aqui não corre solta como no nosso país.

Sérgio Kodato é Professor Doutor da USP – FFCLRP

O orgulho da grávida

Author: fradique  //  Category: Literatura

Há dias, assentado numa sala de espera de uma clínica médica, folheava as revistas de sempre, com as notícias dos escândalos e corrupção em que vive o Brasil há várias décadas. As pessoas comentavam que o PT, até aqui o dono da moralidade e da verdade, era tão corrupto como os demais partidos e que o assassinato do prefeito de Campinas lançava uma sombra de dúvidas sobre aquele partido. Reportagens com a Xuxa, o Lula, o Waldomiro dos bingos, Silvio Santos e os deslumbrados da revista “Caras” , saturavam os meus olhos e esgotavam a minha paciência pois se repetiam “ad nauseam”. Joguei a revista para um lado e passei a prestar atenção nos outros clientes. Vi uma jovem baixinha, trajando um vestido azul claro, que ia até os pés, com um penteado de rabo de cavalo, passando, rapidamente, pela extensão da sala para ir ao bebedouro. Atrás dela vinham mais três crianças, seus filhos, que gritavam mais do falavam, “mamãe, mamãe !”. Ela não se alterou e com maior paciência deu de beber à sua pequena prole. Para mim foi um momento de beleza.

Olhei discretamente para a jovem mãe que mostrava uma gravidez num estágio bem avançado. Ela não desfilava o ventre e nem o umbigo, como fazem algumas gestantes num modismo de tremendo mau gosto. Seu vestido, inteiriço, compunha uma forma harmônica e dava àquela jovem um aspecto agradável, e, no meu pensamento, disse-lhe: “Como você é bela”.

Saciada a sede dos filhos voltou para o seu lugar e percebi claramente que no seu andar revelava um certo orgulho e “aplomb. Ela carregava no seu ventre um outro ser e o fazia com dignidade. Suas passadas eram firmes e delicadas sobre as sandálias de couro. Fechei os olhos, fingindo que adormecia, e pensei que tipo de orgulho ela expressava. Não era o orgulho que acompanha a soberba, a imodéstia ou a arrogância. Era o orgulho ligado a um sentimento de prazer, de grande satisfação e de altivez. E tudo, por quê? Mais uma vez ela aceitara o desafio de ser mãe. Daria ao mundo um quarto filho. Quem sabe se não tentaram persuadi-la a abortar? Quem sabe se o marido, pouco compreensivo, não lhe dissera que ficaria feia, iria engordar e que não estava disposto a se privar do sexo por tanto tempo? Quem sabe quantas dúvidas tentaram colocar no seu coração para que desistisse de mais este filho? Ela, a tudo resistiu. No meu coração refleti porque a Igreja não representava Maria, a mãe de Jesus, no período da gravidez. Imaginei Maria carregando no seu ventre, como aquela jovem mãe, o seu menino Jesus, na modesta casa de Belém, enquanto fazia o trabalho doméstico. Que Nossa Senhora Grávida desse àquela jovem mãe um parto feliz, desejei. Daqueles devaneios fui chamado à realidade pela secretária do médico que tocou nos meus ombros, pois eu parecia estar cochilando, e disse-me: “Está na vez do senhor.

De pronto, levantei-me, e na sala de espera ficou aquela jovem mãe que mais uma vez olhei e que, com um doce sorriso, me respondeu.

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